"Para mim, atuar é um exercício de presença", diz Karine Teles ao Diario
Atriz, diretora e roteirista Karine Teles foi a homenageada na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e conversou com o Diario sobre carreira e futuros projetos
Publicado: 28/01/2026 às 17:17
Karine Teles na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Foto: Leo Fontes/Universo Produção)
Homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, evento que abriu oficialmente o calendário de festivais audiovisuais brasileiros, a atriz, roteirista e diretora Karine Teles não cansa de propor novos desafios ao seu trabalho e, por consequência, à percepção do público também. A fluminense, natural de Petrópolis, estuda teatro desde os 14 anos e, em 2010, fez o que seria um primeiro divisor de águas na carreira: o filme “Riscado”, de Gustavo Pizzi, com quem era casada.
Mas foi com “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, que ela alcançou uma grande projeção nacional com a interpretação da patroa Bárbara. Anos depois, explorou sua versatilidade protagonizando “Benzinho”, retomando a parceria com Pizzi, e “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho. No último ano, ela atuou na refilmagem de “Vale Tudo”, no papel de Aldeíde, personagem feita por Lília Cabral na versão original de 1989. Em Tiradentes, ela esteve presente na exibição de dois projetos de que fez parte: o curta “Romance”, que assina como diretora, e o longa de suspense “Salve Rosa”, de Susanna Lira.
Em conversa com o Diario, Karine detalhou a correria do recente trabalho em TV, deu pistas sobre sua estreia na direção de longas e ainda exaltou a projeção internacional do cinema brasileiro a partir do Recife.
ENTREVISTA COM KARINE TELES
Você considera difícil atuar em registros tão diferentes de forma subsequente?
Nunca foi uma dificuldade, porque não me considero uma atriz de “método”, ou alguém que entra no personagem, recebe ou incorpora algo. É tudo sobre composição. Sobre entender onde estou, qual é o projeto, o que está sendo discutido, pedido. E, a partir daí, vejo como posso contribuir com o todo. “Que Horas Ela Volta?”, o mais difícil da minha carreira, foi fruto de uma construção intensa, de muita pesquisa e conversas com pessoas que tenho como referência. Atuar, para mim, é o exercício da presença, como uma meditação.
Como se sente agora após essa experiência de grande exposição na televisão com “Vale Tudo”?
Fisicamente, foi exaustivo. Um trabalho muito intenso, com 12 horas de diária, sem contar o tempo que você está em casa estudando o texto. E a minha personagem, ainda por cima, exigia uma vivacidade, do jeito de falar à coluna ereta, que me deixou realmente cansada nesse sentido da correria. É uma experiência de imersão naquele personagem por um tempo longo que também foi profundamente enriquecedora.
O que você já pode revelar sobre “Princesa”, sua estreia na direção de longa-metragem?
Posso falar que é um filme de terror, mas não da maneira clássica, com monstros e sangue. Está mais próximo desse lugar do thriller de suspense com um pé na fantasia. O meu curta “Romance” vai um pouco para esse lado da alegoria, que me interessa demais. E é mais ou menos o que estou pretendendo explorar nesse projeto, que conta, inclusive, com consultoria de Kleber [Mendonça Filho] no roteiro.
“Bacurau”, inclusive, foi um de seus trabalhos mais significativos. Quais são as lembranças que trabalhar com Kleber deixou?
Eu sou profunda admiradora do trabalho dele e da maneira provocadora como ele explora justamente as alegorias de que eu gosto tanto no cinema. Aquele papel em “Bacurau” foi muito especial de fazer, apesar do incômodo que é, para mim, primeiro manusear e depois me ver com uma arma na mão, que é uma coisa que abomino, mesmo sendo falsa. Mas faria qualquer outro papel em qualquer filme que ele fizesse; não vejo a hora de podermos trabalhar juntos de novo.
Ser homenageada em Tiradentes é muito poderoso, tendo em vista a longevidade do festival e como ele é estratégico para o audiovisual brasileiro. Como é a sua relação com a cidade e como tem sido esse momento?
Eu vim à cidade em 2007 como espectadora e, em 2022, participei do evento naquele formato remoto, mas é a primeira vez que estou podendo ficar durante todo o festival, e está sendo realmente maravilhoso, até para poder ver tantos filmes incríveis com tanta diversidade de linguagem, o que é extremamente importante para o cinema brasileiro. Dei um grito de alegria quando soube da homenagem. Mas não vejo o momento atual como um auge, porque ainda tem muita coisa que eu quero fazer e descobrir.