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Autor de "O baiano tem o molho", Kannalha diz que "O Agente Secreto" colocou "pedrinha de ouro" no pagodão

Desde as primeiras sessões do filme pernambucano "O Agente Secreto" no Brasil, a música "O baiano tem o molho", do Kannalha, tem sido usada para consagrar a atuação de Wagner Moura.

Camila Estephania

Publicado: 14/01/2026 às 11:26

O Kannalha começou a atuar como cantor de pagodão baiano em 2020./ Matheus Caratt/Divulgação

O Kannalha começou a atuar como cantor de pagodão baiano em 2020. ( Matheus Caratt/Divulgação)

Lutador de capoeira, percussionista e filho de Baiana de Acarajé, Danrlei Orrico, mais conhecido como Kannalha, costumava ouvir dos amigos que ele era o puro molho da Bahia. Em fevereiro de 2025, resolveu transformar os comentários em verso na música “O baiano tem o molho", só não imaginava que meses depois dividiria esse molho com o conterrâneo Wagner Moura, na campanha que pode levar o filme pernambucano “O Agente Secreto” ao Oscar.

“Somos de universos diferentes, mas foi um encontro de artes que proporcionou tudo isso. O pessoal aqui na Bahia brinca que Wagner, por não ser pagodeiro, tem um molho diferente. É que todo baiano tem seu molho especial”, comenta o músico de 28 anos de idade. Não é à toa que mesmo sem fazer parte da trilha sonora oficial do filme, o artista passou a embalar vários momentos de consagração do ator com a canção que celebra o orgulho soteropolitano.

Com a vitória no Globo de Ouro no último domingo, por exemplo, Wagner ganhou diversos vídeos dos fãs nas redes sociais comemorando a conquista ao som do pagodão. Contudo, a associação começou bem antes e ganhou força especial quando o ator tentou reproduzir o requebrado da "batedeira” ao lado do Kannalha, depois da sessão de pré-estreia do longa no Cine Glauber Rocha, em Salvador, em 4 de novembro de 2025.

“O pessoal estava esperando esse encontro e foi um dos dias mais especiais que vivi com a música", relembra o Kannalha. O cantor foi convidado pela equipe do filme para participar do momento, depois de ser espontaneamente lembrado pelo público em diversos eventos do longa pelo mundo afora. “Mantemos contato até hoje. Fomos super bem tratados pela equipe, bem melhor do que outras pessoas que a gente imaginava que nos daria valor", diz ele, que está na torcida pelo longa.

Para o compositor, a conexão com o filme é histórica para o pagode da periferia que, apesar de ainda sofrer preconceito, entrou no radar do público de arte que vem aclamando o filme. “Eu vejo uma pedrinha de ouro que é colocada no gênero”, observa. “Me sinto honrado e feliz porque o Nordeste é um celeiro cultural e eu sou apenas um pequeno porta-voz pra quem o universo mandou essa missão”, continua.

O cantor diz que outros jovens periféricos se inspiram no sucesso da música, que venceu o Prêmio Multishow do ano passado, na categoria "Melhor Axé/Pagodão". “Me passam mensagens comemorando como se eles estivessem vivendo tudo isso, e de fato estão, porque é em prol do movimento todo”, avalia.

De Danrlei a Kannalha

O momento coroa uma vida inteira dedicada à música, pois, desde criança Danrlei toca percussão. Tudo começou como uma brincadeira acompanhando outros músicos da família e se tornou coisa séria por volta dos 15 anos de idade, quando iniciou sua atuação profissional em bandas de pagodão. Com a experiência, passou a dar aulas de percussão em escolas públicas através do projeto Mais Educação.

Em 2020, decidiu se arriscar à frente do microfone pela primeira vez, jogando os holofotes para seu alter ego: o Kannalha. A alcunha surgiu em momentos de descontração com os amigos de banda, durante as viagens para os shows. “A gente fazia música e brincava que tinham vários personagens. Nessa resenha, a parte que eu cantava era a do canalha”, explica.

Apesar de ter começado a compor músicas para cantar inspirado por Marcelo Falcão, ex-vocalista d’O Rappa, Danrlei não pode evitar o Kannalha, que nascia ali com muita força e já tinha um repertório saliente bem próprio. “Pensei como se fosse montar um personagem de fato, para que eu pudesse atuar quando estivesse fazendo a arte de cantar”, revela. Com o amadurecimento como cantor, Danrlei diz que se sente cada vez mais à vontade na pele do Kannalha, hoje parte da sua identidade.

“Já consigo me impor como o Kannalha, o artista, mas às vezes ainda fico tímido. Muita coisa da timidez que foi plantada em mim, na verdade, mais velho vim aprender que tinha a ver com racismo e bullying, que acabaram me colocando numa zona desconfortável, mas fui me libertando disso, colocando mais a cara, aprendendo a ser mais ousado”, analisa ele, que é dono de outros hits, como “Traficante de Desejos” e “Fraquinha”.

O desabrochar de Danrlei busca valorizar a autoestima nordestina também na parte estética do seu trabalho, onde abre espaço para diferentes segmentos da região. “A gente vem tentando inovar há muito tempo com outros gêneros. Eu sou um cantor de pagode, mas acima de tudo um cantor baiano, então, trago células de outros ritmos baianos, como o arrocha e o axé, para o pagodão. Consigo trazer até influências americanas, como o rock, mas é bem sutil para não perder a nossa identidade", diz.

Segundo ele, o próximo passo é levar para a seu som influências de outras culturas nordestinas. "Quem sabe também Pernambuco?", questiona. “O Pernambucano com certeza tem o molho também. Tive que puxar pelo lado do baiano, mas o Nordeste em geral tem o molho", conclui.

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